Como estaremos, nós mulheres, após a pandemia do Coronavírus?



Laura Mury - Laura Mury A Professora e Gestora em Direitos Humanos e Fundadora do Tecle Mulher - Assessoria e Pesquisa no Âmbito dos Direitos da Mulher

Mesmo antes da pandemia do Coronavírus chegar ao planeta Terra, pela entrada da segunda dezena do século XXI, viemos percebendo claramente uma efetiva mudança nas características comportamentais das sociedades. A enorme transformação tecnológica da era digital atinge, por esse tempo, todos os níveis e camadas da coletividade. O Mercado, como o conhecíamos, muda seu formato bruscamente e assim, as grandes lojas físicas dão lugar ao mercado virtual. Essa grande facilidade de consumo passa a mover uma indústria de coisas, principalmente as tecnológicas, bem como ao incentivo à propaganda massiva que induz ao gasto exacerbado de inutilidades.

Igualmente, a comunicação também se torna, a cada dia, mais dinâmica, o que implica num conhecimento enorme de fatos que não necessariamente agregam valores às nossas vidas. A privacidade deixa de existir como em um passe de mágica, e, de repente, nos constituímos em seres visualizados em pixels e valorizados pelo CPF e pelo modelo do celular que utilizamos.
Dessa forma, percebemos um mundo definitivamente ainda mais dividido entre aqueles que dominam a tecnologia e os analfabetos tecnológicos, independente de classe social. Uns, anos luz À frente dos outros que estão seriamente fadados À extinção seja por guerras químicas, biológicas ou mesmo pela fome de alimentos e de água.
Assim, quando um vírus desconhecido aparece dentro desse panorama social, nós, brasileiros, assistimos confortavelmente pela TV, como a um ilustre filme de terror, a contaminação matando milhares de pessoas na China. Após algumas semanas, observamos, da mesma forma, o mesmo caos na Itália e sucessivamente, país após país, vimos o vírus chegar À América do Norte, até que, depois de uma grande festa carnavalesca, o mesmo desembarca no Brasil.
Atualmente, detemos um dado de contaminados e mortos em números que representam um dos maiores do planeta, superando até mesmo os da China que tem uma população maior do que a do Brasil.

Quando ainda não existe vacina ou medicamento para o tratamento dessa doença, a permanência das pessoas dentro das suas casas é o único meio adequado para evitar a sua contaminação. A adaptação de forma urgente, para essa nova característica do cotidiano, transforma terrivelmente as vidas das pessoas, principalmente a vida das mulheres que, além de trazer o trabalho profissional para dentro de casa, assumem diretamente o estudo dos filhos e os encargos domiciliares. O estresse dessa mudança potencializa não um sentimento de solidariedade, mas principalmente o da angústia pela perda da sua liberdade. A convivência confinada potencializa, da mesma forma, os padrões da violência doméstica, mesmo daqueles que são imperceptíveis a um olhar menos criterioso. Por todas essas questões, juntas ou em separado, as mulheres são penalizadas e, mais ainda, aquelas que são chefes de família, as que trabalham de forma autônoma e que, por algum motivo, perderam seus empregos.

A incógnita do futuro é angustiante e nos perguntamos o que nos aguarda, enquanto mulheres, ao fim dos próximos meses? Não existe resposta, porém temos a certeza que existe um imenso desafio para a volta ao mundo social, mas bem sabemos que ainda é através das mulheres, que a sociedade conta com uma resposta, assim como nos tem mostrado a história humana, das eternamente Mulheres de Atenas.

(*) Laura Mury é Professora e Gestora em Direitos Humanos e Fundadora do Tecle Mulher - Assessoria e Pesquisa no Âmbito dos Direitos da Mulher

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